A Pandemia do Corona vírus 

sob a perspectiva da Ciência de Dados

Coronavirus COVID-10 Global Vases by Johns Hopkins University
A maior dificuldade, é que ainda não dispomos de dados e conhecimentoås suficientes para embasar qual a melhor estratégia para combater a pandemia. Olhando somente pelo lado da saúde, o isolamento total diminui a lotação nos hospitais. Mas como em qualquer epidemia, a disseminação somente é controlada quando pelo menos 50% da população está imunizada, adquiriu anticorpos. E manter todos em isolamento não propicia essa imunização. Por outro lado, ainda não se sabe se  as pessoas podem contrair mais de uma vez a covid-19. Sem esse conhecimento, torna-se difícil qualquer estratégia de imunização da população e a saída seria esperar por uma vacina para prevenir ou coquetel para curar. Também seria necessário testar em larga escala a população para verificar os que foram expostos ao vírus e que adquiriram imunidade. Caso não haja reincidência da doença, esses poderiam ser liberados da quarentena. A medida que o número de imunizados sobe, a disseminação  se reduz. Chegando acima de 70 ou 80%, praticamente há o que se chama de imunização de rebanho. 
 
Como exemplo extremo, no caso do sarampo, considera-se a necessidade de cobertura de 95% da população para que se atinja a imunização de rebanho. Para privilegiar a imunização, adota-se a mitigação da disseminação, também chamada de isolamento vertical. O isolamento mais rígido, chamado de supressão, propicia a redução mais drástica da dissertação, mas não cria imunização. O primeiro caso mata mais rápido as pessoas mais suscetíveis a doença. O segundo modelo mata por mais tempo. Precisamos de modelos matemáticos para saber qual o melhor modelo a ser aplicado. A acuracidade do modelo depende naturalmente da precisão dos dados disponíveis. Como raros países ou regiões têm condições de fazer testes em larga escala, seja por questões econômicas ou de logística, as estimativas dos modelos incorporam essas incertezas. Além das características do próprio vírus, que ainda não conhecemos totalmente, precisam ser consideradas nos modelos matemáticos as condições de cada região, como perfil etário, condições sociais, como disponibilidade de água de boa qualidade e esgoto, percentual e criticidade da população de risco, incluindo tipos e percentuais de doenças que agravam o quadro clínico de infectados. Então esses modelos podem indicar tipos de estratégias diferentes, como a mais aconselhável, para diferentes regiões, dentro de um mesmo país ou até dentro de um mesmo estado. Mesmo para os casos em que se consegue a contenção da disseminação, como no caso de Wuhan, onde não obteve-se a imunização, mas apenas a interrupção da contaminação, ou continua-se mantendo toda a população em isolamento até que uma vacina esteja disponível, daqui a 18 meses, segundo as melhores estimativas atuais, ou libera-se a população da quarentena. Segundo estudos de universidades e centros de pesquisa de renome, nos casos de interrupção do isolamento haverão ondas recorrentes de contaminação. Para Wuhan, caso a população seja liberada por agora, a estimativa é de uma segunda onda de contaminação em agosto desse ano. 
 
No longo prazo, a vacina será a solução ideal. Independentemente da estratégia a ser adotada em cada país, seja para privilegiar a imunização, como foram as opções iniciais do governo britânico e de Israel, ou pela contenção da disseminação, como adotado na maioria dos países, podemos esperar um número bem mais elevado de mortes do que as que estamos tendo por enquanto. Supondo-se que estejam sendo contabilizados apenas um décimo do real número de contaminados, devido ao pequeno número de testes realizados e porque possivelmente a maioria dos infectados não apresentem sintomas, a letalidade da covid-19 também seria de um décimo do que tem sido estimado. Ainda que a letalidade média seja de apenas 0,1%, ou de uma morte para cada 1.000 casos de infecção, se a metade da população mundial for contaminada, podemos esperar cerca de 3,6 milhões de mortos em todo o globo. Podemos fazer todas as variações em termos de percentual de letalidade ou da população que terá contato com o vírus, mas o número esperado de mortos estará sempre na casa dos milhões. 
 
Em termos de Brasil, quando a covid-19 tiver se disseminado em comunidades carentes e de baixo poder aquisitivo, espera-se índices de contaminação e de mortalidade mais elevados que a média geral, principalmente nos grupos de risco dessas comunidades. Realizar estimativas com bases nos dados atualmente disponíveis, seria incorrer em riscos de erros graves. Porém, não seria leviano prever que em alguns cenários, poderemos ter dezenas ou mesmo centenas de milhares de mortos no Brasil, por covid-19, nos próximos meses. Ter que assumir essa responsabilidade, pelo grande número provável de mortos, deixam governantes em todo o mundo acuados e indecisos sobre o melhor modo de agir, gerando as inúmeras mudanças de direção que temos assistido, a medida que mais dados são obtidos e aumenta o nosso entendimento da situação. 
 
Para além das questões puramente relacionadas a contenção não farmacológica (NPI’s), temos ainda as questões de ordem econômica, que também têm enorme potencial de causar mortes, por inflar a população de risco. Desemprego e aumento da pobreza trazem dificuldades adicionais para os que não tiverem as condições mínimas de manutenção, que poderão sofrer com desnutrição, falta de higiene adequada, impossibilidade de manter isolamento social e, por fim, aumento expressivo de casos de depressão. Mais uma vez, precisamos de modelos matemáticos para termos boas estimativas, que também irão variar para cada país ou região, sobre os impactos econômicos e sociais devido ao isolamento e interrupção de atividades. 
 
No atual cenário, o que temos são muitas incertezas e a disseminação de informações sem fundamento, como se fossem verdades absolutas, em maior escala que a disseminação do próprio vírus. Desse modo, discussões apaixonadas sobre qual a melhor alternativa para minimizar os danos, simplesmente não fazem sentido e não ajudam em nada. Precisamos nos ater aos dados e aos fatos. 
 
Por Gilberto Fernandes.